Pornô 1234

09 de março
Mise en scène



Mise en scène é uma expressão usada em francês que se refere a encenar, colocar em cenar, por em cena, não apenas no contexto do palco teatral, mas no espaço social. É uma expressão que, quando usada nesse sentido mais público e social, nos sugere a existência de atores, de personagens, de que a postura e a forma de viver e falar e trabalhar e se relacionar com os outros não passa de algo colocado em cena, isto é, pensado, articulado como um papel e números em que ele aparece. É bastante usado em estudos da comunicação, principalmente nos estudos semióticos. 
Me parece o termo perfeito para tratar da pornografia. Ainda que utilize como número principal o sexo -algo tão íntimo e tão prazeroso que parece impossível alguém encenar o prazer -, esse é (apenas) o grande recurso para chegar a um espírito realista da produção. O sexo público, como na pornografia, escancara a idéia de que o sexo é ato de alcova e, portanto, de tão íntimo, é natural, para pensar que o nossa ação sexual, dentro das quatro paredes do nosso quarto ou de um motel, não passa de uma mise en scène, por mais angustiante que isso possa parecer. 
O vídeo acima mostra o quanto a ação sexual pornográfica pode ser apenas uma encenação. Bocas, atos, mão no sexo, beijos, tudo parece construído e manipulado segundo uma ordem e um padrão de linguagem (ou gênero?) que constitui. Até que ponto são reflexos de ações humanas - desses atores dentro da alcova do motel ou do próprio quarto -, até que ponto são encenações de uma linguagem constituída pela pornografia em décadas de produção, e até que ponto respondemos a essa linguagem e usamos essas caras e bocas - parte dessa encenação - na nossa vida sexual?





06 de fevereiro
Come Shot ou Porra em Close





Pornografia não existe sem o gozo masculino. Pelo menos se estivermos falando da pornografia enquanto gênero que se constitui enquanto tal desde meados do século XX. O gozo, a gozada, a porra é o ápice, o grande clímax da performance de um filme ou produção pornô. Não que seja maior ou mais importante que o gozo feminino, isso dentro da pornografia heterossexual, mas sim porque é o orgasmo visível - ainda que algumas mulheres literalmente jorrem ao gozar, mas é algo não tão comum na imagem pornô e se torna mais um fetiche que uma norma; ao contrário, o orgasmo feminino é "sentido" pelo som: os gemidos, os gritos, os "shhhhsss", os "ais", os "fu-fucks", a performance do corpo numa cavalgada, como se seus gemidos viessem do interior e dissessem uma verdade intríseca.

Voltando à porra. Nos estudos sobre pornografia, a gozada masculina é chamada come shot ou money shot (ABREU, 1996, p.96) . Ele condensa ou implode toda a energia do número pornô, e se tornou comum nos filmes, talvez mais como tentativa de identificação do (homem) telespectador por um possível desejo de ver o gozo. Enquanto, aos ouvidos, excita-se ao escutar a mulher gozar, na imagem, ele se identifica ao ver o esperma jorrar de um pau, como se pensasse "Eu também quero que meu pau jorre porra nessa nêga!".
Interessante é que, se isso surge na pornografia heterossexual, se torna também padrão na performance pornográfica gay: é necessário que os dois (ou mais) homens/rapazes gozem para completar a cena. Melhor ainda se o gozo acontece num blow job, ou, simplesmente, num boquete* (isso é também excitante no pornô hétero), ou se a porra sai de uma gozada anal, em uma performance bareback (sem preservativo). O importante é que o gozo seja plenamente visível, em close, um grande chavão da imagem pornô.

*Sexo oral em português coloquial

Referência: ABREU, Nuno César. O Olhar Pornô. São Paulo: Mercado de Letras, 1996.





19 de dezembro
Fá-lo latejar


Senti uma falsa estranha energia. Me parecia correr todo o corpo, estimulada pelas imagens de computador. Ainda que sobrasse a visão e a audição, me faltava tato e toda a energia que o toque de mãos desvela por sobre o corpo, em sua superfície ou em sua profundidade (tanto o toque como a energia). Por outro lado, me sugeria uma energia virtual, cujo maior símbolo era o latejar do sexo, que não precisava mais de punheta: por si só gozaria. Eram imagens pornográficas. Tanto desejo virtual ali a(s)cendido: que grande poder é esse, o dessas imagens; que corporeidade, que performance, que imagens, que rapazes me tangem a agir assim?

***
O desejo da pornografia poderia ser voyeur. Mas não o é. O grande tesão do voyeur é estar presentificando, assistindo a uma relação sexual de foro íntimo, ainda que as pessoas ali envolvidas saibam – o que gera um efeito de publicidade e, portanto, de performance de corpos. Enquanto que, quando se consome a pornografia, se o faz sabendo que é imagem pública, ou feita para ser tornada pública, para ser acessada de alguma forma; mesmo as imagens amadoras ou a captação de imagens caseiras sem o consentimento do sujeito captado tem por interesse, de seus produtores ou referentes, de serem tornadas públicas.

Ao mesmo tempo, há um distanciamento pungente e principalmente consciente de quem lê a imagem pornô: eu sei que imagem é essa, está na minha frente ou nas minhas mãos, reconheço os corpos, o sentido do desejo, mas estou consciente de que esse referente está distante de mim, temporal e espacialmente, que aquele ato é registro virtual, passado, cujos sujeitos referentes eu nunca (provavelmente) verei na vida, nem em caráter tão íntimo como nesse imagem; da mesma forma, eles me estão longe enquanto pessoa, e essa safadeza que há em pensar que tudo é fingimento, que ali há personagens, que me deixa ainda mais excitado, ao mesmo tempo que livre de qualquer amarra com a subjetividade alheia. Mas que me traz com força inebriante um desejo, que me corre o corpo, esquenta-me e a meu sexo, e fá-lo latejar. Pelo menos, até que eu goze. 

Fonte de Reflexão: Vídeo retirado de http://tour.suite703.com/scenes/kurt-wild-and-steven-daigle/11837/?&nats=MTI4MzguMy4yLjIuMS4wLjAuMC4w


 
05 de dezembro
Mizer e as fotos de corpos mortos

Ao ver as fotografias de Bob Mizer, algo de mágico me seduz. 
Jack Conant (Athletic Model Guild, 1950)
John Tristam (Athletic Model Guild, 1950)

John Winship (Athletic Model Guild)

 Tom Cooper (Athletic Model Guild, 1950)


São os corpos, os maravilhosos corpos, que vão determinar de uma vez por todas o imaginário homodesejável do corpo masculino. Talvez esses jovens rapazes retratados não soubessem ou percebessem, à época, quão importantes seus corpos seriam e quão valiosos, a esse pioneirismo, seus corpos se tornariam – ou melhor, a fotografia dos seus corpos desnudos e puberbes, aos anos 1950. Acho que definitivamente é o estando-lá a que se refere Philippe Dubois (O Ato Fotográfico) e Roland Barthes (A Câmara Clara). É saber que essas fotografias guardam algo do passado, já morto; a beleza do olhar daqueles jovens, a graça em mostrar seus músculos e seus pênis, seus sexos e sua puberdade, uma ingenuidade guerreira, vencedora, quase heróica frente às câmeras, mas que talvez não soubessem a consequência do ato tanto à sua época quanto para as demais décadas seguintes. São como vítimas, mas vítimas maliciosas, cuja vitimez excita.
Não raramente, vestiam-se ou se faziam interpretar ou posar – e o que é o posar se não interpretar? - soldados romanos ou deuses gregos, símbolos de força e virilidade. Símbolos e armaduras de coragem para disfarçar a fragilidade desses corpos. As marcas que as fotos carregam no tempo – a moldura, os carimbos, o tom sépia que carregam, os carimbos e assinaturas - servem para nos afligir e informar que aquilo se passou há mais de 60 anos, e que não passa de uma mera ilusão fotográfica; esses corpos sofreram a ação do tempo, não são mais esses, e, se hoje são considerados corpos feios ou velhos, é porque são vítimas, hoje, de seus próprios corpos outrora. Assim como deles somos também reféns hoje, ainda que igualmente jovens.
São jovens mortos, cuja jovialidade não existe mais, a qual só temos acesso a partir dessas remanescentes fotografias. E os jovens da época, quão excitados estiveram em frente, ao lado ou de costas para esses corpos, ou apenas os observando? O quanto esses corpos devem ter deixado o peito de Mizer excitado de batidas, seu sexo latejante, sua cabeça ébria, seu desejo corroendo e arrepiando cada parte de seu corpo e membros? E que mágica é essa que faz com que, sessenta anos depois, essas fotos, esses belos e lindos e ainda desejados corpos mexam tanto com o imaginário homoafetivo? 
 
Talvez porque sejam os pais dos nossos corpos, mas sem parecê-los; como um pai lindo, belo, da mesma idade que a sua, cuja ingenuidade não permite saber que é pai (seu), uma espécie de incesto imagético. Pergunto-me: onde estão esses rapazes hoje, ou como estão agora? Mas logo, percebo que não me interessa: interessa-me olhar mais essas fotografias belas: são elas que me importam – embora retratantes de um momento e de um corpo morto – como objeto de pesquisa e objeto de punheta. 

Sempre. 

(Fonte das fotografias:  Portal BigKugels Photographic http://www.bigkugels.com/content/BeefFrame.html

 




 21 de novembro
Pornografia: a arte maldita

Toda obra de arte é feita para ser pública. Não que necessariamente seja massiva, destinada a todos e a públicos incertos, mas a algum público ela se destina – nem que seja o público da sala de jantar lá de casa. A obra de arte não é produzida para ser mantida escondida, sob os cuidados de seu criador; uma pintura, uma escultura ou um desenho não são feitos para as regalias próprias de seu autor, pois é feita para aparecer: há a obra, o criador e o leitor dessa obra – não necessariamente nessa ordem e, definitivamente, sujeitos e construções não fechadas em si mesmos. Essa sempre foi uma característica da arte, ou melhor de sua obra: ser publicizada, ser pública, ser exposta, não ser escondida.

Talvez, por isso, as imagens pornográficas – e também os textos – até hoje não tenham atingido o status de arte. Não creio que seja por questões de qualidade (quem nunca se ateve a uma bela fotografia de rapazes trepando, ou de um casal em gozo, com um belo enquadramento, uma iluminação maravilhosa, todos esses aspectos de composição bem construídos, ainda que o que nos atenha a visão seja o próprio ato sexual ou a sexualidade). O grande problema se refere ao fato da pornografia não ser feita, em sua essência, a ser pública, ainda que voltada a um público específico. Ainda que carregando todos os aparatos técnicos e subjetivos concernentes a produção artística, ela não figura no chamado “sistema de arte”, ou melhor, não é aceita para compor essa sistema, a não ser que se diga artística – a arte pornográfica tem um uso social vulgar bem específico.

E mesmo que se diga artística, não deverá receber a necessária legitimação de opinião para ser categorizada como arte. Também passa por uma questão estrutural. A arte pornográfica não está nos catálogos, ou exposta em museus, ou nas discussões entre artistas e produtores de arte; ela está nas revistas das bancas, em geral lá no fundo ou no alto; está nos sites da internet, os quais só são acessados após o navegador admitir ser maior de idade; está em imagens vendidas nos guetos e nos espaços alternativos; estão nos vídeos escondidos nos fundos das locadoras, acessados por um catálogo levemente escondido nas prateleiras; estão nas revistas que meninas e rapazes escondem dos pais na parte de trás da estante ou do guarda-roupa, ou alocadas no quarto de empregadas, lá atrás. São espaços ocupados, mas que não são públicos, ou destinados a ser publicizáveis, aos quais apenas tem acesso aqueles que sabem o código de conduta para tal. Insisto que ela não é pública, e, por isso, não é considerada arte.

Aí, entramos em uma outra questão, que são as causas dessa não-publicização. Mas não sei ao certo se é quanto ao tabu social que ainda é o tema “sexo”, pois entre os artistas essa tema, em geral, não é mais tabu, ou tenta-se ao máximo deixá-lo de ser. Pois, portanto, porque a pornografia não é arte e não pode ser publicizada ou não está no sistema de arte?